A importância do ambiente para o aprendizado de matemática.

A importância do ambiente para o aprendizado de matemática. v.1.


Daniela Mendes Vieira da Silva 1


Alunos do CEHC investigando logaritmos e suas propriedades no LSM 


       Matemática é algo que se faz apenas com papel e caneta, disso não há dúvidas, correto? Trata-se de uma verdade incontestável para alguns. É verdade para matemáticos, astrônomos e tantos outros. Só que o que vale para alguns não vale para todos e infelizmente esta abordagem abstrata da matemática tem sido tomada como regra geral no planeta. Esta minha opinião é corroborada pelo péssimo desempenho em matemática não só no Brasil, mas no mundo todo[1].


      Se fosse apenas o péssimo desempenho, já seria ruim. Mas como o que é ruim pode sempre piorar, também em termos planetários o medo da matemática segue galopante[2]. Alguns motivos: 1º desde tempos imemoriais a ciência matemática tem sido reservada a uns poucos eleitos, reforçando relações de poder. 2º tal reserva persiste até os tempos atuais onde a matemática continua acessível a uma elite privilegiada, devido à abordagem imaterial e pasteurizada da qual já falamos aqui. 


      Basta observar e comparar uma sala de aula do século 19 e uma sala de aula do moderno século 21 e verificar que elas são basicamente iguais. Em ambas há uma lousa e carteiras dispostas em fileiras. Tal ambiente sempre favoreceu e continua favorecendo o ensino imaterial da matemática. Tal ensino era justificado até meados do século 20, quando o ensino mecânico preconizado por Skinner[3] era pedagogicamente dominante. Mas após a revolução cognitivista que aflorou nesta época, através dos trabalhos de Bruner,  Piaget e outros[3] tal situação se mostra insustentável.


      Se com o ensino abstrato de matemática em um ambiente neutro não temos conseguido fomentar o aprendizado de todos os nossos alunos, é forçoso aceitar que o ambiente homogeneizante que criticamos aqui, e no qual temos vivido enquanto classe, também faz parte do problema. 

      Pesquisas[4] indicam que nenhum de nossos alunos do ensino fundamental anos iniciais e grande parte de nossos educandos dos posteriores níveis de ensino não conseguem compreender conceitos que não estejam ancorados em objetos e situações concretas[5]. Isso nos leva à primeira necessidade do ambiente: materiais manipuláveis que os auxiliem a atravessar a ponte entre o concreto e o abstrato. Mas será que somente tais materiais são suficientes?

      Aprendi com as vivências do projeto LSM[6] que estes materiais concretos devem ser muito bonitos e coloridos, pois é necessário criar todo um ambiente que evoque a beleza da matemática. Isto pode ser conseguido com bonitos pôsteres relacionando esta ciência à vida real, cartazes, materiais imantados dispostos em paredes com pintura metalizada, lindos poliedros feitos de canudinhos e fixados no teto com nylon, parecendo voar pela sala. 

      Além da beleza das paredes é necessário cativar os alunos com pequenas surpresas. Ou seja, nesta sala dedicada à rainha das ciências, devem estar presentes experimentos com a participação de personagens curiosos. Eu, por exemplo, utilizo minions, smurfs e alienígenas em experimentos que envolvem a compreensão e o cálculo de volumes e que estão sempre expostos neste espaço.


     Uma vez que a matemática está bem representada por materiais e experimentos interessantes é hora de pensar em outras maneiras de cativar o aluno para este espaço. Uma forma muito interessante, é a utilização de fragrâncias perfumadas, daquelas encontradas no supermercado. Este é um ponto interessante, pois a memória olfativa desempenha um grande papel em nossa vida[7]. Também é interessante a utilização de música ambiente, pois ela facilita a concentração e diminui a conversa paralela. Essa eu aprendi com a escola da Ponte[8].


     Enfim, estudar em um ambiente pensado para nos envolver, certamente facilita o aprendizado. Implantar tal ambiente não é tarefa fácil, para tanto, é necessário fazer o que Beratriz D’Ambósio chama, muito apropriadamente, de insubordinação criativa[9]. Isto significa que temos que quebrar paradigmas.

       Entretanto, é importante perceber que tanto a sala ambiente quanto o uso de materiais concretos específicos devem se somar à tantas outras iniciativas didáticas pois nada deve ser tomado como solução milagrosa para o ensino de nenhuma disciplina.

       Portanto, foi pensando em atender a todas estas condições que o espaço do projeto LSM[6] foi concebido. Aliás, não tem sido bom apenas para os alunos conviver neste lugar tão especial, tenho vivido nele há mais de um ano e posso dizer que, para o professor, é gratificante atuar em um lugar com tantas possibilidades pedagógicas. 


     Fica aqui um convite para que você professor/gestor implante este ambiente em sua escola! Vamos juntos! Contem comigo!


Abraços e até a próxima!


Referências e Bibliografia consultada

[5]BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais:ensino médio. Brasília: MEC/SEMTEC, 1999. 4v. 


[5]CASTELNUOVO, E. Didatica de la Matemática Moderna. México: Trillas, 1970.


[9]D’AMBRÓSIO, B. LOPES, C.E. MODOS DE UMA PROFESSORA DE MATEMÁTICA NARRAR AS SUAS AÇÕES DE INSUBORDINAÇÃO CRIATIVA. Disponível em: http://vicipariodejaneiro.com.br/wp-content/uploads/2013/08/6.pdf. Acesso em 18 nov. 2014.


[5]FIORENTINI, D. MIORIN, M.A. Uma reflexão sobre o uso de materiais concretos e jogos no Ensino da Matemática. Disponível em: http://www.matematicahoje.com.br/telas/sala/didaticos/recursos_didaticos.asp?aux=C,. Acesso em 04 nov. 2014.


[3]LEFRANÇOIS, G. R. Teorias de aprendizagem. São paulo. Cengage Learning. 2008. 

[8]NOVA ESCOLA. José Pacheco e a escola da ponte. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/jose-pacheco-escola-ponte-479055.shtml, acesso em 28 fev. 2015.


[5]PIAGET, J. (1983) A Epistemologia Genética. Piaget. Coleção Os Pensadores. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural. 1-64.

[4]REVISTA EXAME. Mais de 90% saem do ensino médio sem aprender bem matemática. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/mais-de-90-saem-do-ensino-medio-sem-aprender-bem-matematica. Acesso em 07, jan. 2015. 


[6]SILVA, D.M.V. A construção do saber e do laboratório sustentável de matemática através da implementação do 1º ciclo de oficinas matemática é ciência no 1º ano do ensino médio do colégio estadual Hebe Camargo. Disponível em < http://eemat.sbemrj.com.br/wp-content/uploads/2014/10/RE15_DanielaMendes.pdf>, acesso em 28 fev. 2015.


[7]SUPERINTERESSANTE. Olfato: o sentido da vida. Disponível em < http://super.abril.com.br/cotidiano/olfato-sentido-vida-438456.shtml>, acesso em 28 fev. 2015.



[2]UNIVERSIA. Brasil é o 3º no ranking de países onde os estudantes têm mais medo de matemática. Disponível em < http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2014/05/19/1097046/brasil-3-ranking-paises-onde-estudantes-medo-matematica.html>, acesso em 28 fev. 2015.

[1]UOL EDUCAÇÃO. Pisa: desempenho do Brasil piora em leitura e 'empaca' em ciências. Disponível em <http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/12/03/pisa-desempenho-do-brasil-piora-em-leitura-e-empaca-em-ciencias.htm. >, acesso em 13 jun. 2014.


1 Docente concursada atuante na rede estadual do Rio de Janeiro, Tutora no curso de pós graduação Lato Sensu de Novas Tecnologias no Ensino de Matemática LANTE/UFF, Pesquisadora no grupo GEMat-UERJ/Lúdica. Professora Licenciada em Matemática pelo consórcio CEDERJ/UFF, Pós graduada em Educação Tecnológica pelo CEFET/RJ, e aluna do curso de Licenciatura em Pedagogia do Instituto Cotemar

SOBRE O AUTOR

Daniela Mendes Coordenadora do projeto colaborativo Laboratório Sustentável de Matemática. Doutoranda em Ensino de Matemática (UFRJ), Mestra em Educação em Ciências e Matemática-PPGEduCIMAT/UFRRJ. Professora Regente de Matemática na SEEDUCRJ- Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro- Programa dupla escola CEHC. Professora Tutora nas Licenciaturas em Matemática e Física do consórcio CEDERJ.
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Vencedor na Categoria Ensino Médio

Vencedor do 2º Prêmio de Educação Científica

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